Assassin’s Creed Origins: Juramento do Deserto — Resenha do livro

(Resenha completamente livre de spoilers)

A essa altura, já é uma tradição de Assassin’s Creed: cada novo jogo principal da saga é seguido pelo lançamento de um livro, que explora mais o contexto e o enredo históricos do jogo. Nós do blog já fizemos um artigo cobrindo informações gerais de cada um dos romances paralelos escritos por Oliver Bowden, assim como uma comparação entre cada livro e seu respectivo jogo. Porém, o novo livro, Juramento do Deserto, também de Bowden, leva a série de livros um passo além, ao ser completamente inédita: em vez de ser lançado pouco depois de seu jogo (Assassin’s Creed: Origins), Juramento do Deserto foi lançado em Inglês algumas semanas antes, o que o caracteriza como uma prequel completa. E, após a recepção positiva da história de Bayek e Aya, vocês devem estar curiosos para saber o que esse livro traz de novo ao cânone da saga. Então vamos lá!

O legado dos Medjay

Como outros livros da série, Juramento do Deserto é, em sua maior parte, narrado em primeira pessoa pelo próprio Bayek de Siuá, protagonista histórico de Assassin’s Creed: Origins. Porém, assim como o livro anterior de Bowden, Submundo, uma parte de Juramento é narrada, em terceira pessoa, sob a perspectiva de outros personagens importantes, como Sabu, pai de Bayek, ou Aya, sua futura esposa. A mistura de pontos de vista funciona bastante bem no livro, com dois lados de uma mesma história sendo intercalados e lentamente desenvolvidos, nos dando a oportunidade de conhecer até mesmo um pouco mais da Ordem dos Anciões (embora nem tanto, pois eles ainda são um mistério nesse livro tanto quanto seriam mais tarde, no início do jogo). O livro explora bem, no entanto, a antítese dessa ordem: os Medjay.

Na vida real, a ordem dos Medjay existiu como uma força militar de elite que se espalhava por todo o Egito. Eles tinham a responsabilidade de proteger pontos de interesse do faraó, como palácios, tumbas, capitais e as fronteiras do reino. Os Medjay foram bastante usados durante o início do Império Novo, mas já haviam desaparecido à época da 20ª Dinastia do Egito, que durou de 1189 a 1077 a.C. Sendo assim, da mesma forma que os Cavaleiros Templários e Hashashins/Assassinos da vida real foram extintos muitos séculos antes de personagens como Desmond Miles, em Juramento do Deserto os Medjay também são uma ordem secreta, considerada extinta, e isso ajuda a estabelecer o clássico tom de mistério dos primeiros jogos de Assassin’s Creed. Os ideais dos Medjay, entretanto, ainda têm bastante caminho a andar até se transformarem no nosso conhecido Credo dos Assassinos (uma transformação mais presente no jogo do que no livro), enquanto que a Ordem dos Anciões já apresenta uma maneira de pensar bem típica dos futuros Cavaleiros Templários.

O enredo do livro, de acordo com a sinopse oficial do livro, se inicia em 70 a.C. (embora a versão brasileira diga em seu verso “708 a.C” – comentarei mais sobre isso mais tarde), ou seja, 21 anos antes de Assassin’s Creed: Origins. Bayek é um jovem de 15 anos, já em romance com Aya de Alexandria, com quem cresceu no oásis de Siuá, uma cidade conhecida por seus grandes templos. Seu pai, Sabu, é o que Bayek chama de mekety – o protetor de Siuá –, e o garoto está impaciente para seguir em seus passos. Apesar de Bayek já ter conhecimentos de sobrevivência, Sabu está relutante e diz que o filho não se tornará o protetor até que seu treinamento esteja completo.

Em um certo dia, quando um mensageiro chega ao povoado, Sabu parte sem destino certo sob circunstâncias misteriosas, o que deixa Bayek com uma pulga atrás da orelha. Assim, o jovem parte logo em seguida, em busca de respostas que o levem a seu pai, e que, com sorte, o amadureçam no caminho. Contar mais do que isso, creio eu, poderia estragar um pouco a aura de mistério que o livro tão bem reproduz, portanto esta resenha não contará com spoilers, e a descrição do enredo para aqui. Ao longo da história, aparecem personagens de Origins, como Hepzefa, Khensa e Rabiah. Bayek também passa por cidades não exploradas pelo jogo, como Djerty e Tebas, entre outras.

Um livro de suspense

Do mesmo modo que eu gostei do enredo histórico de Origins por entregar tudo o que promete, o enredo de Juramento também é bem competente, e segue a mesma linha do jogo, com momentos maduros e alguns até mesmo sombrios; o livro não tem medo de mostrar violência ou tortura, na medida certa. O constante medo de seu misterioso inimigo é algo que acompanha Bayek e Sabu por toda a sua jornada. O leitor, no entanto, nunca fica perdido, pois esse mesmo inimigo é apresentado aos poucos ao longo dos capítulos em terceira pessoa, criando um personagem interessante e um antagonista digno. O medo também reforça um dos pilares que mais tarde comporiam o modo de agir da Irmandade dos Assassinos: a discrição, tomando cautela extrema para atacar o seu inimigo apenas quando ele menos o espera.

Um ponto negativo do enredo, entretanto, é que ele foi feito para ser lido antes de Origins, o que significa que aqueles que já conhecem a história do game podem achar o enredo um tanto previsível. Não quero dizer que isso seja um defeito da própria história, mas é inegável que ter uma noção do que acontecerá mais tarde no jogo já te dá dicas de como Bayek estará ao final do livro. Além disso, o livro pouco tem verdadeiramente do conflito entre Assassinos e Templários: se não fosse pelo título do livro, mal poderia se identificar este livro como Assassin’s Creed, pois Medjay e Anciões ainda estão bem distantes da forma como os conhecemos. Desse modo, àqueles que procuram a história da origem da Irmandade eu recomendo continuar no jogo, pois o foco do livro é mostrar a origem de Bayek, e nisso ele cumpre muito bem seu papel.

O outro ponto negativo que eu quero ressaltar, no entanto, nada tem a ver com o enredo, e sim com a publicação: Juramento tem uma quantidade anormal de erros de revisão. O primeiro deles eu já mencionei: o verso do livro diz que ele se passa em “Egito, 708 a.C.”, quando na verdade a história se passa em 70 a.C.(algo que pode muito bem enganar leitores desavisados, pois o enredo em si não menciona data alguma). Não sei se a edição brasileira é a única em que isso acontece, mas o problema é que encontrei vários outros desleixos. Conjunções desaparecendo e deixando a frase confusa, dois sinônimos de uma mesma palavra um atrás do outro, mas o mais bizarro desses deslizes foi a frase “ele era muito mais maior do que eu”. É nítido que esses erros não se dão por uma falta de conhecimento da tradutora Ryta Vinagre (que também traduziu Bandeira Negra e Unity), mas sim por uma falta de atenção da editora. O número de erros não é grande, mas é mais do que se espera de uma publicação profissional, e esses errinhos são suficientes para tirar a imersão do leitor na narrativa. Espero que mais atenção seja dada à 2ª edição do livro.

Conclusão

Apesar de não avançar muito a saga Assassin’s Creed como um todo, Juramento do Deserto é um excelente complemento ao novo jogo da série, Assassin’s Creed: Origins. Bayek e Aya são alguns dos melhores personagens que conhecemos na série nesses últimos anos, e Juramento faz ótimo trabalho em apresentá-los e usar suas personalidades ao máximo. Recomendo o livro a todos que se interessaram pela história de Bayek, e ainda mais àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de começar o jogo, para ter uma experiência completa.

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