Crítica do filme de Assassin’s Creed

tn_critica-filme-de-assassins-creed-9

Para falar sobre o filme de Assassin’s Creed e sua crítica é preciso contextualizar um pouco. A situação atual do cinema, do entretenimento e, talvez, até da Ubisoft, podem ser coisas que alterem o julgamento do filme. Digo isso, pois, a responsabilidade de trazer o rico (em ambos os sentidos) universo dos games para as telonas vem sendo transportada título a título. Ainda que alguns filmes legais tenham saído dessas transições, parece que nada agradou a crítica: Silent Hill, Prince of Persia, Warcraft… Os fãs adoraram, o grande público se divertiu. A crítica especializada massacrou.

Como começar a falar de Assassin’s Creed, o filme, sem parecer ser tendencioso? Impossível. Seja pelo marketing feito pela Ubisoft e pela 20th Century Fox, seja pelas primeiras impressões negativas feitas pela crítica especializada… Difícil. Antes de assistir ao filme, eu já havia lido que a imprensa havia desaprovado, então, fiquei ressabiado. Ao mesmo tempo, eu sou um fã da saga e também trabalho um pouco com este lado de “criar conteúdo para formar opinião“. A crítica é tendenciosa.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-13

Aqui no Brasil, a coisa foi um pouco mais amarga, já que o filme estreia em 12 de janeiro. Mesmo sem assistir, muitos fãs afirmaram que a crítica não entende nada de filmes para games, que o filme foi feito para os fãs e muitas outras baboseiras. Sim, a gente é fã, e muito. Mas, não, não somos trouxas. Pelo menos, não tanto. Filmes podem ser bons mesmo com o desgosto da crítica especializada? Sim, claro. Blade Runner está aí para provar. O público sem noção sabe separar gosto pessoal de qualidade de filmes? Não. Poucos fazem isso conscientemente e com o mínimo de coerência (eu já gente vi dizer que a crítica não sabe nada e a prova disso é o filme do Batman vs Superman, que seria bom, mas a crítica não tinha entendido… Aham… Senta lá, Claudia).

Enfim, a postagem é sobre o filme de Assassin’s Creed, então, vamos a ela. Eu vou separar em partes, para que, quem quiser ler, tente entender o meu ponto de vista.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-19

Primeiro de tudo: vale a pena ir ao cinema ver ao filme de Assassin’s Creed?

Vale. Muito. Se você é fã de Assassin’s Creed, você tem que assistir ao filme e tirar suas próprias conclusões. Não importa o que digam, você tem que ver. A experiência de vê-lo é apenas do telespectador e ninguém pode tirar ou substituir isso. Então, vá.

Outra coisa, tem spoiler na crítica? Sim, tem spoiler.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-25

Crítica do filme de Assassin’s Creed: a parte boa do filme.

Vamos falar das partes boas… Vamos sair da perspectiva de quem já jogou os títulos da franquia e começar a enxergar outras possibilidades para o universo de Assassin’s Creed. Desde muito antes do filme ser feito, a Ubisoft bateu bastante na tecla de como queria que o filme fosse e, principalmente, o que ele não fosse. Essa preocupação é visível. Eu diria até que é palpável. Conseguimos pegar todo o esmero que a empresa teve em deixar o filme um capítulo de Assassin’s Creed no cinema.

Alguns pontos bacanas do filme de Assassin’s Creed: ambientação

A ambientação, as localidades, os itens, os nomes. Tudo isso faz parte do filme de Assassin’s Creed e é um presente para quem vem dos jogos da franquia. Essa preocupação, no entanto, parece, também acaba tomando parte do filme e aparecendo mais do que outros elementos, o que, de repente, tenha feito com que os não conhecedores dos jogos ficassem em dúvida do que eles tinham que ver ali.

O período histórico ficou bem representado, o contexto convence e a existência dos Assassinos e Templários na tomada da cidade de Gramada ficou bem bacana. As construções estão lindas, as cores, os detalhes das roupas e acessórios de cada um dos figurantes. Tudo isso ficou lindo de se ver.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-10

Os personagens do filme de Assassin’s Creed

Um exemplo disso é o próprio personagem principal. Michael Fassbender é um excelente ator. Ponto. Marion Cotillard também. Ponto. Mas, a verdade seja dita, o filme exige pouco da atuação deles. Talvez, fisicamente, Fassbender deve ter malhado muito, treinando vários movimentos, só que a atuação mesmo, pareceu algo aquém do que ele precisa fazer. Ficou ruim? Não. De verdade, não achei. Só que também não ficou excelente, não em termos de atuação; eu digo em termos de fazer com que o ator tenha que se desdobrar para passar algo. Isso, o filme parece não pedir muito.

E falando do personagem, Callum Lynch daria um bom personagem de videogame. É um personagem que me tornei fã? Não. Na verdade, eu gostei do que não vemos sobre Callum Lynch. O personagem começa o filme adolescente e depois já vai aparecer 30 anos mais tarde, como um adulto acostumado a contravenções e crimes, já que ele está na cadeia. Tudo isso acontece muito rápido: o jovem Callum está andando de bicicleta (falhando ao tentar pular de uma laje para um container em uma brincadeira), passando para a cena em que vê a morte de sua mãe, pelas mãos de seu pai e depois fugindo. Este é o passado de Callum. Depois disso, já o encontramos no presídio, recebendo a extrema unção por ter assassinado um cafetão.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-7

Com isso, há uma lacuna imensa para imaginarmos o que aconteceu com Callum. Provavelmente, uma vida violenta, mas não tão criminosa. Quando o personagem salienta que assassinou um cafetão, ele nos dá a entender que, sim, ele é capaz de matar alguém, só que é alguém que faz algo errado.

Ao mesmo tempo, Callum Lynch é um personagem totalmente desfragmentado. Seu carisma não é dos maiores e sua motivação é bem pouca. A história de Callum tem um quê de Desmond Miles. Nos primeiros jogos da série, aprendemos a seguir os passos de Desmond e entendemos quão angustiante é toda aquela situação. O assunto de Assassinos e Templários é uma coisa nova e que vai se mostrando aos poucos, em um emaranhado de facções e jogo de poder. Depois, no decorrer da narrativa, percebemos que não é a primeira vez que Desmond tenta assumir o controle da sua vida alheio ao tema principal do jogo, mas, ao mesmo tempo, parece que ele acaba aceitando seu destino e cumprindo seu papel.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-2

No filme de Assassin’s Creed, os acontecimentos são parecidos, porém, com uma reviravolta que seria extremamente interessante para a saga. Callum Lynch não é um herói. Ele não só não o é, como também não quer sê-lo. Assim como Desmond, ele se torna uma vítima do que as facções fizeram para sua vida e, por tal, não vê apreço por nenhuma delas. Quando ele resolve tomar uma decisão e assumir um papel, parece que o filme vai começar a ficar bom, levando a franquia para um novo rumo: a de um personagem principal que está alheio à Irmandade dos Assassinos e à Ordem dos Templários por vontade própria, mas que também decide ir contra tudo isso, sem decidir qual deles está certo.

Qual a grandiosidade disso? Bom, enquanto Desmond, em seu primeiro momento, decide desistir de tudo e, depois, acaba aceitando seu destino, Callum flerta em seguir o caminho oposto: após tomar conhecimento das coisas ele decidiria ir contra o que começa a descobrir. Infelizmente, não é isso que acontece. O filme toma o caminho óbvio e Callum abraça a Irmandade para ser o herói da história.

Entretanto, não falarei mais deste assunto, pois a ideia é falar da parte boa, por enquanto.

Outros personagens fazem o filme melhorar. Alan Rikkin de Jeremy Irons é talvez o melhor personagem do filme e Sofia Rikkin, de Marion Coillard, também ajuda bastante no descobrimento do personagem principal, mas a coisa meio que para por aí.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-8

Alan Rikkin é decidido e controlador. Ele sabe exatamente o que quer e vai até o fim para conseguir. Já Sophia parece uma mistura de coisas: ela também é destemida, mas começa a se interessar por Callum. Em determinado momento, parece até que eles se tornarão o par romântico do filme que, ainda bem, não aconteceu. Mas, lá para os finalmentes do filme, Sophia vira uma bagunça, mas deixarei para falar disso depois.

Mais um ponto positivo do filme de Assassin’s Creed: as referências

Uma das coisas mais legais no filme de Assassin’s Creed são as referências. Sim, muitas. MUITAS. O filme consegue trazer a atmosfera do jogo e também reviver cenas que são dignas de outros títulos. A perseguição à carroça, por exemplo, lembra MUITO Assassin’s Creed Revelations, a iniciação de Aguilar, logo no começo do filme, lembra muito o clima de Assassin’s Creed II e Assassin’s Creed Unity, Baptiste é um excelente personagem e que cita partes interessantes de Assassin’s Creed Liberation, o quarto vazio de Callum é quase igual ao de Desmond, o leap of faith e tantos outros detalhes, lembrando até da fiel carroça com feno.

E, com certeza, o antro de referências está na própria Absterto. MUITA coisa que aparece lá é de deixar os fãs felizes. O versão antiga do Animus, por exemplo, todo mundo já sabia que estava lá, mas ver as referências ao Codex de Altair, o arco e flecha de Connor, a bengala de Jacob, as pistolas de Edward. Cara, isso é de chorar de emoção. Tem um momento em que parece muito ser o capuz de Ezio, do Revelations.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-17

No entanto, o que eu mais gostei em termos de “exploração” às referência foi com relação aos Assassinos do tempo presente. Apesar de pouquíssimos, os representantes da Irmandade mostram personalidade em suas aparições. Sim, elas são mínimas, mas são divertidas quando ocorrem. A melhor delas é feita por Baptiste.

Diferente do que eu havia pensando antes mesmo de ver o filme, eles não formam um “Power Rangers” de Assassin’s Creed, mas, apenas porque o filme não faz tal exposição. A parte mais legal desses Assassinos é ver, quando ocorre a “revolta” deles ainda na Abstergo, quando cada personagem escolhe uma arma icônica da franquia. Cada personagem tem sua conexão com os muitos jogos e personagens: Emir descende de Yusuf (Assassin’s Creed Revelations), Moussa deixa claro que descende de Baptiste (Assassin’s Creed Liberation), o jovem Nathan tem descendência do traidor Dulcan Walpole (Assassin’s Creed IV Black Flag) e Lin é descendente de Shao Jun (Assassin’s Creed Embers e Assassin’s Creed Chronicles China). Somente essas descendências poderiam render personagens mais esféricos, mas o tempo de filme não permite tanta coisa.

Outras coisas boas do filme de Assassin’s Creed: a movimentação

Isso ficou MUITO bom: tanto a movimentação das lutas, quanto do parkour e também a troca de situações no tempo presente para o passado. Ficou tudo muito bonito de se ver e acompanhar. É empolgante, bem feito e, numa das passagens, tudo aquilo que está acontecendo vai se destinando a algo que todo fã queria ver: o salto de fé. Toda a movimentação faz parte do universo de Assassin’s Creed e isso ajudou MUITO a não fazer do filme uma perda de tempo. É notório que o cuidado com as referências de movimentação, golpes, saltos e detalhes que estão nos jogos e farão com que os fãs se sintam maravilhados; ao mesmo tempo em que conquista o grande público, com um detalhe “plástico” que faz sentido no contexto e que é bonito de se ver.

Outro detalhe que gostei MUITO é na verdade um puta de um spoiler. Se você chegou até este blog, é bem provável que saiba que a história e, também, o filme de Assassin’s Creed gira em torno da Maçã do Éden. Pois bem, a cena em que descobrimos com quem a Maçã finalmente ficou é muito legal. Ela traz toda aquela sensação de PORRA, que foda!, que encontramos nos games quando conhecemos um personagem histórico conhecido.

Outra coisa boa do filme de Assassin’s Creed: o Animus

Este é um item controverso, que também aparecerá na parte ruim, mas, o destaque do Animus no filme é muito grande. Não tem como não se encantar com a máquina que é praticamente mais um personagem no longa. A solução de criar um Animus que gera movimento no tempo presente é uma questão de conquistar o grande público, e funciona muito bem.

A ideia de parecer algo relacionado à Realidade Virtual condiz com o nosso contexto tecnológico e o visual que o Animus 4.3 nos proporciona é algo que você assiste admirado. Muita gente não gostou por motivos contextuais ao da franquia, mas isso é outra história.

Acabando com a parte boa, vamos para a ruim…

Antes de continuar, uma verdade sobre o filme de Assassin’s Creed

Então, aqui começa a polêmica. Antes de começar, vamos deixar uma coisa clara. Filmes não são feitos exclusivamente para os fãs. Não, não são. Eu vi muita gente falar isso e, quando pedi argumentos, só ouvi “mimimi” e baboseiras de trolls. Neste caso, por que o filme de Assassin’s Creed não foi feito para os fãs?

Assim como outros muitos lançamentos de Assassin’s Creed, o que muitos fãs não lembram é que todo item, seja qual for a mídia, ele é um produto. Produtos, geralmente, são feitos para vender e gerar lucro. Não é simplesmente isso, mas um produto tem que gerar valor diretamente e indiretamente. Quando um jogo é lançado, ele precisa ser vendido para arrecadar e pagar os custos de sua produção. Livros, quadrinhos e as outras mídias, todas funcionam assim. A grande diferença do filme é que ele é muito, mas muito mais caro que um livro.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-23

Aqui, muita gente já vai querer me interromper com “mas você tem que ver que a produção de games AAA também custa bem caro e pode chegar ou ultrapassar custos de filmes”. E eu respondo, sim, podem, mas, no caso de Assassin’s Creed, há um fator que diferencia tudo, a origem da mídia. Assassin’s Creed nasceu e cresceu como um jogo. O público, a plataforma e o expertise na área direcionam o produto para um caminho que podemos dizer “mais seguro” em termos de investimento. No caso do filme de grande público, é a primeira vez que a franquia chega nesta “mídia”. O investimento pode ser massivo, mas o fato de debutar em um longa, difere da ocasião de se criar games.

Para quem ainda não sabe, a Ubisoft não quer ser “apenas” uma produtora de games, mas sim uma empresa de entretenimento. Não por menos ela já tem sua própria editora de quadrinhos e também seu estúdio de cinema.

E, continuando, o filme de Assassin’s Creed não foi feito só para os fãs. Isso está claro desde o início das produções. A Ubisoft fez questão de fazer parte da produção para garantir que o filme esteja dentro do universo criado pela empresa, fazendo com que seu produto principal não se perca quando apresentado para um novo público e, também, para que aqueles que já o conhecem se mantenham familiarizados e identifiquem seus gostos da franquia ali.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-6

Entretanto, a ideia do filme é ampliar a franquia. Assassin’s Creed cresceu muito. Saiu dos jogos para os livros, para as histórias em quadrinhos e para muitos produtos licenciados, entretanto, a Ubisoft viu potencial para levar a franquia a outro patamar (já que Prince of Persia teve problemas com direitos e não pode continuar no cinema, pelo menos por enquanto). A ideia de aumentar o público está no “PG-13”, na tentativa de fazer com que todo mundo vá ver o filme: os gamers, os casais, os pais e a família… Todo mundo! Quando todo mundo vê e gosta de um filme, mais tipos de produtos podem ser licenciados, mais pessoas vão querer saber de Assassin’s Creed, comprando tudo o que se refere a marca: não se trata apenas de jogos, mas de camisetas, brinquedos, roupas, etc.

Assassins Creed No interior do Animus Into the - capaUm parênteses em tudo isso é a existência de livros que podem melhorar a experiência do filme. A Ubisoft já lançou no Brasil pelo menos dois livros relacionados ao filme de Assassin’s Creed. O primeiro deles é o excelente livro de ilustrações e curiosidade do filme: Assassin’s Creed – No interior do Animus. Como eu já falei sobre ele, deixo o link para você saber mais sobre e, já adianto. O livro é lindo.

O segundo é um romance, adaptado por Christie Golden. Ainda não li, mas já vi relatos de que ele aumenta e muito a história do longa.

Então, se você é fã e acha que o filme foi feito para você, pode acreditar, sim, claro. Mas, viva aí no seu mundinho e, saiba, a Ubisoft quer MAIS do que apenas você comprando os produtos dela. Todo mundo quer fazer o que a Disney está fazendo no cinema: ganhando bilhões e bilhões de dólares.

 

A parte ruim do filme de Assassin’s Creed

Assassin’s Creed tem um ambientação boa, referências ao universo da franquia dos jogos e um visual lindo. Entretanto, tem algo no filme que baixa bastante o seu nível, a história. Aqui, vale um esclarecimento de que o problema não é a história que há para se contar, mas como ela é contada e o peso dado para as muitas cosias. Neste aspecto, sem se aprofundar, o filme se torna ruim, já que se mostra muito bonito, porém com um conteúdo indigesto. Parece, ele ficou só na borda da esfera da complexidade, com medo de se aprofundar.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-18

A história do filme de Assassin’s Creed (e porque ele é ruim)

Incrível como conseguem estragar uma história que está pronta e feita num nível excelente. Quem jogou Assassin’s Creed, começando pelo primeiro, sabe que uma das grandes características da franquia é sua complexidade. A história apresentada no jogo é toda envolvida em mistérios e descobertas, e tudo apresentado de uma maneira que mantém a diegese, deixando o público na mesma situação que o personagem principal, na época, Desmond Miles. No filme de Assassin’s Creed, isso não está claro. Na verdade, isso está longe de estar claro. Não que deva haver um bê-a-bá, só que, também, não precisar ser tão raso.

Começa o filme temos a ambientação que agrada a todos os fãs. As falas, os atos, tudo é bastante legal para quem já jogou, pois remonta à Irmandade dos Assassinos de modo fiel, quando somos apresentados à Irmandade e ao personagem através da iniciação de Aguilar. A intenção é bacana: começa o filme, assistimos à iniciação. Legal! Depois disso, já saltamos para a vida de Callum Lynch, pegamos uma cena do passado dele e saltamos trinta anos no futuro para um personagem prestes a ser executado. De Callum, é isso. A história do seu passado é algo que fica escondido e o que acompanhamos é a sua transformação. Isso é legal, sim, mas as motivações de Callum em sua trajetória são muito fracas.

Callum é um prisioneiro que foi declarado morto. Ele não tem mais nada a perder, mas pode recuperar sua vida de volta. Para isso, ele só precisaria concordar com os Templários e cair fora. Entretanto, ele descobre que existe uma Irmandade dos Assassinos e, ainda no meio do filme, ele se declara alheio a tudo isso.

Mas, durante uma cena que é bonita, mas que estraga a história do filme, ele simplesmente muda de opinião e abraça à causa como se seguir os Assassinos realmente fosse a motivação da sua vida. E é feito assim: pá-pum. É como se ele realmente encontrasse Jesus. E isso é risível.

Depois desta cena, Callum é mais do que um Assassino convicto, ele se torna o líder de uma rebelião de Assassinos. Tipo, oi? Isso deve ser legal para uma criança de 9 anos, mas não existe a menor possibilidade de agradar a um crítico de cinema. E, veja, eu não manjo nada de cinema e já achei este caminho vergonhoso para um filme com um tema tão complexo e adulto.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-4

Os muitos problemas dos protagonistas do filme de Assassin’s Creed

Se você assistiu ao filme, provavelmente deve ter sentido: qual é o carisma de Callum Lynch? O ator é competente, isso nós já sabemos, agora, qual a conexão que o público tem com o personagem principal, a não ser que você mesmo, como conhecedor da história do jogo, coloque seus significados, que não estão nos filmes, mas na franquia, e passe a entender o personagem como alguém importante dentro da história?

Isso é um problema grave. Se o filme fosse feito de uma maneira em que o personagem não é o centro da história, ok. Mas, não! Foi o contrário. Todo o marketing, toda a divulgação, toda a abordagem do filme é feita com foco em Callum e Aguilar, só que, quando chegamos na história, as ações, as falas e o papel desses personagens são dignos de um coadjuvante qualquer. A câmera está nele, os diálogos são para eles, mas a verdade é que eles são simples, fáceis e sem muito carisma.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-15

Aguilar praticamente não fala o filme inteiro. As únicas falas são expressões que significam alguma coisa para os fãs, mas que não dizem nada a respeito de sua história e também do porquê dele estar ali. Em contra partida, Callum Lynch é conduzido pelos outros personagens, parecendo um adolescente de 40 anos perdido, sem saber o que fazer, procurando atenção pelos cantos, até achar um propósito lá nos 30 minutos do segundo tempo.

Depois de ter assistido ao filme, eu tive a sensação de que já o tinha visto antes, através dos trailers. E isso me fez concluir que, na verdade, o filme era só aquilo que estava no trailer mesmo. O começo da história mostrando a vida de Callum parece interessante e reflete a minha sensação com relação ao filme, já que nos são mostrados fragmentos (daí, você, como fã, já pensa: “hmmm, fragmentos! Gostei!”), só que, ao terminar a história, você percebe que os fragmentos não fazem parte de um todo. Quando você os junta, não há um significado maior, mas sim apenas aqueles que os próprios fragmentos já passaram. Não há surpresa, não há algo além. Há só o que já foi mostrado e que não te leva para lugar algum. A vida de Callum Lynch é contada no trailer. Imagine a decepção de quem vai assistir ao filme buscando um novo personagem principal para gostar – seja fã da franquia ou não.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-16

Entretanto, você pode tentar contra argumentar com “É com o personagem Aguilar que Callum se completa”. Só que não. Fiquei abismado como conseguiram deixar Aguilar ainda menos expressivo que Callum. Se o Assassino do passado fosse Aguilar, João, Pedrinho ou qualquer outro, não faria diferença nenhuma, pois, afinal, quem é Aguilar? Não sabemos. Começamos o filme sem saber. Terminamos o filme sem saber.

E, depois que você sair do cinema, pergunte-se: quais as motivações reais de Callum. O que realmente dava propósito pra ele? Até praticamente o fim do filme, nada. Depois, quando ele ouve as falas de sua mãe em um devaneio, aí, ele consolida seu convencimento e aceita ser um Assassino. Sério, isso é infantil demais.

Outro problema no filme de Assassin’s Creed: uma maçã estranha

Mais uma decepção, a Maçã do Éden. Todo mundo fala dela, tudo gira em torno dela. É por causa da Maçã do Éden que Abstergo faz tudo o que ela faz no filme. Legal. Passamos todo o filme entendendo apenas uma motivação por parte da Abstergo e de seu CEO: Alan Rikkin (por sinal, um dos melhores personagens do filme).

A Maçã é o objetivo. Somente pelo destino dela é que a Abstergo foi atrás de Callum. Ele é o meio para chegar ao objetivo. Quando descobre isso, Callum passa a atuar como um agente que quer se libertar e também aproveitar para não deixar a Maçã cair nas mãos dos Templários – só que essa motivação acontece tão rapidamente e de modo tão confuso que parece frugal.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-99

Quando o filme desemboca no conhecimento do paradeiro da Maçã, aí, sim, você, como telespectador, pensa: PORRA! Agora, vai. Quando eu vi que a Maçã havia ficado nas mãos de Cristóvão Colombo, pensei, “PUTA QUE PARIU, isso ficou muito bom”. A simples existência da Maçã significava muita coisa na história da humanidade. Entretanto, novamente, aí o filme simplesmente não aproveita a Maçã do Éden.

O artefato cai nas mãos dos Templários, é apresentando como uma conquista entre eles e, no auge da festa, Callum Lynch aparece e acaba com tudo. Só isso. Não vemos a Maçã propriamente agindo. Não temos um vislumbre ou uma pincelada do potencial dela. E, a pior parte, não seria difícil apresentar todo este potencial. Seria fácil mostrar como a Maçã ajudou a guiar Colombo, como ela pode ter feito para que ele tenha sido um navegador diferenciado, à frente de seu tempo, talvez, mas, não.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-22

A Maçã ficou sendo o objeto de desejo durante todo o filme e, quando apareceu, só fez isso e nada mais. Eu senti uma grande frustração. A primeira foi com o próprio papel da Maçã, que é na verdade um mapa do DNA humano, ao invés de tudo aquilo que nós já conhecemos no jogo. Claro, eu sei, trata-se de uma adaptação e, além disso, trata-se apenas do primeiro filme e de uma das Maçãs existente no universo de Assassin’s Creed. Pode ser que a Ubisoft queira fazer um segundo filme e, quem sabe, lá, abordar esta ou outra Maçã de um modo mais grandioso. No segundo aspecto, a decepção foi dentro do próprio filme. Quando a Maçã apareceu, logo na sequência ela já saiu de cena, sem mostrar muito da sua capacidade.

Visualmente, como muito do filme, ela ficou bonita. E só.

Animus: a maior novidade do filme de Assassin’s Creed

O Animus me é uma mistura de euforia com decepção. Ele é lindo. Plasticamente, é interessante e gera efeitos visuais muito bacanas. Entretanto, na história em si, ele é só uma papagaiada. Ele é feito para gerar um impacto visual, só. Mesmo com o argumento de que ele foi feito para que os operadores e funcionários da Abstergo acompanhem as memórias da cobaia, enquanto mostram o que acontece para aqueles que estão no tempo presente, há detalhes infantis, como por exemplo, para que inferno Callum usa as hidden blades no tempo presente?

Sério? Qual a utilidade de uma porcaria de uma hidden blade física no cobaia sendo que, tudo o que ele precisa para se lembrar é da conexão com o Animus. Se a hidden blade é importante, o capuz não o é? Só a hidden blade é o gatilho para fazer com que a sincronização de memória funcione? Palhaçada… Infantil demais.

tn_critica-filme-de-assassins-creed-20

E mesmo a desculpa de “os funcionários da Abstergo podem acompanhar o que está acontecendo com a cobaia”, simplesmente, não. Em tempos de Helix e Animus Omega, é muito mais barato e eficiente simplesmente transmitir numa tela o que a cobaia está vendo. Funcionaria no filme? Sim, funcionaria, mas seria um filme que o público mais jovem não curtiria.

O último problema do filme de Assassin’s Creed: a trilha sonora

De novo, eu não sou especialista, mas, creimdeuspai, que trilha sonora ruim. Quando surgiu o primeiro trailer e colocaram a imagem da Espanha antiga ao som de rap, todo mundo já torceu o nariz e pensou: bom, é um trailer, vão acertar isso depois.

Pois é, não acertaram, não. As músicas parecem não fazer parte do filme. Pior do que não colaborar com a imersão, ela até tira a tua atenção, criando ruído em uma passagem. Você está vendo a cena e está gostando, mas quando ouve o que estaria complementando a cena, sua mente parece tentar desvencilhar, já que as duas coisas não combinam.

Eu achei bem ruim, dentro do meu senso estético comum.

Conclusão: vale a pena ver ao filme de Assassin’s Creed no cinema?

Óbvio.

O filme é bom? No geral, não. O filme é divertido: sim, é interessante. É digno de Assassin’s Creed? Depende: se você é o tipo de jogador que só se importa com o tempo passado, aquele jogador que não lê os extras, não quer descobrir as muitas complexidades e nem sabe o que significa Assassin’s Creed Initiates, talvez o filme seja o que você espera.

Agora, se você tenta saber cada vez mais sobre a franquia, entende que há muitas histórias envolvidas e, sabe que Assassin’s Creed é um amontoado de histórias complexas, aí, então, o filme é simplesmente um passatempo. Pois  desperdiça o potencial.

E quando digo desperdiça o potencial, eu arrisco dizer que o filme é contido. Parece que tiveram medo de colocar a complexidade da franquia em um filme de Assassin’s Creed. Nada de Primeira Civilização, sem  histórias paralelas distintas, sem outros personagens marcantes, sem menções a grandes nomes da franquia, sem apresentação do que é a grandeza de Assassin’s Creed, com personagens históricos fazendo parte da guerra e moldando o destino da humanidade desde o começo desta.

Ao final, vou ler o romance adaptado do livro para ver se é melhor, pior ou no mesmo nível.

Leia também

16 Comments

  1. Oi. Que livro é esse que você comenta no final?

    Também achei o filme fraco. Tem boas cenas de ação, bons atores, mas nada disso adianta sem uma boa estória. Concordo com você, faltou mostrar o poder da maçã para quem não conhece os jogos. Isso ficou muito na conversa no presente, assim a rivalidade entre assassinos e templários ficou rasa.

    Como fã da série, eu gostei. Vi o filme por meios obscuros e vou ver no cinema assim que estrear.

    ✌️

  2. Fala ai man, Tudo certo?
    Sei que o intuito era dar uma boa ideia para o pessoal que acompanha o blog sobre o filme que estréia na semana que vem em terras tupiniquins, mas a verdade, pelo menos para mi se me permite dizer é que, o texto está muito comprido, com muitas informações que poderiam ter sido filtradas, resumidas e teriam a mesma ideia, conseguiriam passar o mesmo sentimento para o leitor.
    O problema de um texto comprido é que começa a ficar desinteressante depois de um tempo lendo, onde não se vê a proximidade de um fim.

    Mas de qualquer forma o texto está muito bem escrito e muito bem pontuado, com as separações por seção, tópicos, o que deixa muito mais agravável, de qualquer forma quero dizer que não existe spoiler para que é fã, leu os livros ou jogou os jogos, então essa não é uma preocupação para quem for ler a crítica,

    Para o restante, nada a acrescentar, somente elogios pela escrita tranquila e bem feita,

    Feliz ano novo e que o blogo continue assim

    • Olá, Luiz. Blz? Obrigado pelo comentário e pela sinceridade. E, aproveitando, serei sincero contigo também: eu escrevi o texto praticamente “logo após” assistir ao filme. Foi algo que um “desabafo”. Acho que o mais honesto é eu fazer uma nova crítica após assistir ao filme mais algumas vezes. Pelo menos mais umas duas. Muito obrigado pelo feedback, as críticas me ajudam a tentar não errar mais. Valeu e bom ano novo pra ti também. 🙂

  3. Eder, realmente a trilha foi catastrófica. Foi composta por Jed Kurzel, irmão do diretor Justin Kurzel (que tbm compôs a trilha de Macbeth – do mesmo diretor/irmão kkk). O grande problema aí é que a trilha não conversa em nada com a identidade sonora das demais trilhas de jogos – li todos os livros e sempre ouvindo as trilhas originais – mesmo considerando que é uma adaptação e blá blá blá…

    • Exatamente, Richiele. As trilhas dos jogos são fantásticas. Elas combinam perfeitamente com os títulos… Até os trailers dos jogos usam músicas bacanas e me vem o filme e faz isso… Lamentável.

  4. E aí, Eder, tudo bem?

    Cara, conheci seu blog hoje e concordo com grande parte de sua análise. Me impressionou como todos os personagens são planos (Maria nem o nome é dito no filme; só sabemos disso pelos créditos). Perderam a chance de contar a vida de Callum, como fizeram com Ezio e Arno. Ficaria corrido, no final das contas. Espero que a Ubisoft lance uma série um dia e conte uma boa história, que não pode caber em um filme.

    Gostei do modelo do Animus, me pareceu uma alternativa curiosa porque se associa à memória muscular. Pra mim, faz muito mais sentido o aprendizado de técnicas físicas pelo bleeding effect desse modo do que sentado num divã; ao mesmo tempo, o uso das hidden blades pelo Callum me incomodou muito. E tem outra coisa: se Aguilar perdeu o dedo para usá-la, por que Callum usa-a sem perder o seu também?

    Ah, eu senti falta de uma personalidade inventora: um Benjamin Franklin, um Da Vinci ou Piri Reis… Pra mim, essa é uma das grandes tradições de AC.

    Abraço!

    • Olá, Fernando. Tudo bem, obrigado. E contigo?
      Pois é cara, na minha opinião, os pontos fracos do filme foram: enredo, desenvolvimento de personagem e trilha sonora. Talvez eles arrumem no próximo filme (se tiver), mas concordo 100% contigo. Tinha que ser um seriado na Netflix. Seria MUITO mais foda e daria para desenvolver todos os assuntos, todos os Assassinos e tudo mais…

      Sobre o Animus, cara… Eu até entendo que eles queria algo mais “visual” para impressionar o grande público, entretanto, há alguns fatores que “descartariam” este modelo com braço. (1) A Abstergo já possui modelos mais avançados (Helix e Animus Omega) e mais práticos para revisitar memórias. Como o filme se passa no mesmo universo do jogo, ficou meio sem sentido para quem jogou tudo; (2) Alguns fãs alegam que se o filme usasse o Animus do jogo, onde o personagem no presente fica sentado, o filme seria muito parado no presente e eu discordo: Matrix (1999) usou este formato e é um filme EXCELENTE (só o primeiro). A questão é saber colocar uma trama interessante no tempo presente; (3) Por que diabos o Callum tem que usar uma hidden blade para entrar no Animus? Qual é o motivo de tudo aquilo a não ser “deixar o Fassbender com um visual legal”. Alguns afirmam que a hidden blade ajuda na sincronização e eu acho uma desculpa muito fraca, já que só a hidden blade, que é uma relíquia, e poderia ser uma fake, ajuda na sincronização e todo o resto, não.

      Sobre o dedo do Callum, talvez você se lembre que o Leonardo da Vinci utilizou os pergaminhos do Altair para reconstruir as hidden blades do Ezio em Assassin’s Creed II, quando ele faz isso, ele menciona que o Altair havia aperfeiçoado o mecanismo para que o usuário não precisasse mais cortar o dedo. Depois disso, o nome “mecanismo” foi disseminado e os Assassinos não precisaram mais cortar o Dedo. Cronologicamente, Ezio e Aguilar coexistiram, mas não sabemos se já se encontraram (e, se aconteceu, o Callum já tinha cortado o Dedo)…

      E eu gostei com quem ficou a Maçã no final, pena que não falaram nada sobre o artefato ter ajudado a figura histórica em algo…

  5. Eu assisti Assassin’s Creed bem no último dia em que ficou em cartaz… EU … AMEI! Eu tinha lido as críticas… massacrantes… tanto no Brasil quanto as críticas gringas… mas eu li os livros… sou apaixonada pelo personagem … não importa o que dissessem, eu fui assistir e gostei muito. Pode lá ter tido seus “ruins’, mas não importa.

    • Bom dia Morgana,

      Mesmo tendo lido os livros você ainda amou o filme? Entendo que você não tenha tido uma interação com o jogo, mas o livro é bem fiel ao mesmo,

      Não quero brigar e nem ser defensor assíduo da franquia com unhas e dentes. O filme é bonito, tem cenas bem construídas, lutas, interesses e até fatos históricos, mas ainda assim “amei” é uma palavra bem forte para descrever um filme como esse, que tinha potencial para ser muito mais, muita mais mesmo, e sabendo da história, mesmo através dos livros, da para ver isso de longe,

      Um grande abraço

  6. acho que o filme faz sentido se tu imaginares o todo. uma extensão da história, principalmente se pensares no que acontece no ‘heresy’ em relação aos templários e a irritação do rikkin com isso.
    se podia ser melhor? podia. é muito corrido e o desenvolvimento sofre com isso. mas não achei um filme execrável.

    a verdade é que a ubisoft foi muito apressada. devia ter esperado o avanço dessa negociação com a netflix e, dando certo, fazer uma série. AC pede uma série por sua estrutura. teria mais tempo de desenvolver uma história, personagens e tudo o mais.

    ( sobre a novelização do filme, há um ou outro detalhe mas nada muito além. legais são as, algumas, citações ao ‘heresy’ )

    • Fala, Rodrigo. Blz?
      Eu concordo contigo, acho que a Ubi deveria ter testado primeiro uma série, depois levado o filme para o cinema. Alguns fãs gostaram, outros não. Ponto. Agora, gostar do filme não faz ele ser bom em termos de estrutura. Agora, não dá para fazer um filme para o grande público e deixar a consistência da história dele noutros veículos. Quem vai ao cinema não vai comprar um livro para “melhorar” a história que assistiu.

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*